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Cinema Brasil Em Foco

por Livia de Almeida Nascimento

Fica Comigo Esta Noite

direção de João Falcão.

Admito que tenho um certo preconceito em relação ao gênero comédia; a espectativa criada faz, em geral, que eu me decepcione com filmes que desde o início propõem-se engraçados. Por isso não me animo em ir ao cinema ver, por exemplo, o recente A Guerra dos Rocha. Até ri com o sucesso de bilheteria Se eu fosse Você (mesmo sendo uma história parecida ao do americano Sexta Feira Muito Louca [Freaky Friday], foi uma surpresa boa), mas nada me empurrou à sala escura para ver sua continuação, assim como achei Divã divertido, mas longe de virar meu filme preferido. Ressalvas feitas, acabo de ver a comédia brasileira Fica Comigo Esta Noite. Eis o que posso comentar:

A criatividade incansável de João Falcão, um ano depois de lançados A Máquina e O Coronel e o Lobisomem, trouxe ao cinema Fica Comigo Esta Noite e vemos de novo que, em se tratando de João, tudo é possível. Como nos anteriores, um espectador distraído deve ficar atento à história, ou não compreenderá que diabos está acontecendo nela. A narrativa, que antes de ser roteiro de filme era uma peça escrita por Flávio de Souza e foi representada por atores como Marisa Orth e Murilo Benício, se passa em vida, mas logo fica entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, com direito a fantasmas e cenas inexplicáveis. O texto faz com que o filme tenha  um tom por vezes sombrio, mas os diálogos inteligentes “clareiam” o humor negro a que se poderia chegar.

Fica Comigo Esta Noite foi produzido por Diler Trindade, que parece gostar muito da fantasia criadora de universos da mente de João e seus colaboradores. O diretor conta que Vladimir Brichta foi (bem) escolhido para fazer o personagem principal por conseguir tratar de um assunto delicado – a morte – de forma bastante divertida. De fato as brincadeiras com o tema no filme são tantas, que outro ator qualquer dificilmente lidaria com a insanidade inocente proposta, tornando-a tão deliciosa de se ver. O ator Gustavo Falcão, aqui como o fantasma Coração de Pedra, aparece completamente diferente de Antônio, protagonista de A Máquina. Nos dois filmes, a fotografia e a trilha sonora têm papel fundamental, construindo junto com os demais elementos cinematográficos histórias a princípio sem pé nem cabeça, mas que não só divertem como levam o espectador a realidades de maneira geral completamente diversas à que está acostumado.

Os elogios a João Falcão feitos por Gustavo e Clarice Falcão (que interpreta Dona Mariana quando jovem) podem ser suspeitos pela familiaridade (respectivamente, sobrinho e filha). Porém, junto com os protagonistas, a satisfação que a veterana Laura Cardoso (Dona Mariana quando velha) mostra por trabalhar com o diretor é reveladora. Ele é, segundo ela, um dos poucos diretores de verdade que ela conhece, pois sabe pedir ao ator o que ele quer, sem tirar sua criatividade. Esse é um papel tão difícil quanto delicado, pois há muitos diretores que tratam atores como bonecos, e o resultado, para um espectador-observador, se vê em cena. João faz muito teatro, e é inspirador ver como transporta essa arte para o cinema, um meio mais “impessoal” que a velha arte dos palcos.

Apesar de achar as obras de João  boas fontes de diversão, tão elucidativas quanto bem articuladas, diria que seus filmes quase pecam somente pelo excesso de informação. Um espectador sem paciência desiste de acompanhar e tentar entender aonde está sendo levado. Por outro lado, esse é um pecado bom, pois nesse caso é melhor o excesso à falta de criatividade. Dito isso, se você procura um filme para tarde chuvosa, final de semana sem festa e balde de pipoca à vontade, embarque na loucura e bom divertimento!

Por Livia de Almeida Nascimento, Julho de 2009.

Livia de Almeida Nascimento cursa Direção Teatral, é cinéfila, escreve, fotografa, desenha, produz, pesquisa, cria, observa... Está em plena efervescência profissional e é colunista e colaboradora do site Meu Cinema Brasileiro.

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