Contra Todos é cheio de contra-sensos desde seu início. Apesar dos vários prêmios que recebeu quando foi lançado em 2004, é bastante desconhecido do grande público no circuito comercial de cinema. A primeira cena, um jantar em família, é tão caseira e descontraída que mais parece cenas extras de making off. Em seguida, vemos o título do filme com um mar de fundo, sendo que a história é passada na periferia de São Paulo. Questões como mentiras, sexo, violência, drogas e traição são abordadas a todo tempo, mas, ao contrário do que se pensa lendo a sinopse na contracapa, o filme não é mais um soco no estômago do brasileiro.
Está mais para uma interminável sessão de tortura localizada, tirando o fato de que o torturado não tem vontade de sair da cadeira; está tão envolvido com o acontecimento e sem saber o que está por vir, que por isso aguarda pacientemente. Os personagens principais são pessoas comuns: moram juntos Teodoro, sua filha Soninha e sua segunda esposa, Cláudia. Waldomiro, amigo da família, está sempre por lá e tudo parece bem. Parece. Aos poucos, percorrendo o mesmo caminho pelo qual passam os personagens, o espectador vai conhecendo os podres de cada um, e olha que são muitos; todos estão fugindo de algo.
A história surpreende pela maneira que é mostrada. Toda ação tem algo de impuro por trás, mesmo enquanto ainda há a tentativa de recuperar o respeito que lhes foi perdido. Os quatro escondem segredos entre si e para o mundo. São no entanto tão livres de culpa que podem, ao invadir uma casa para matar, falar paralelamente sobre a compra de uma casa ou um carro. O que é a desgraça de um pode servir para o deleite de outro. As verdades são difíceis de serem descobertas, os desejos se confundem com limites, e enquanto a família se desfaz, o amigo segura as pontas cordialmente, disfarçando seu próprio caráter a todo instante.
A hipocrisia, a falsidade e a desmedida são traços dos personagens mas não do filme. Quase tudo o que é vivido pelos protagonistas é visto pelo público, de nudez a assassinato. O interessante, no entanto, é justamente que nada é previsível ou dramatizado, e a espontaneidade chama a atenção. Soninha não está nem aí para fechar a porta ao fazer xixi, Teodoro anda à vontade quando lhe convém, e se algo sabiamente não é mostrado, é porque produz muito mais impacto assim, com seu desfecho à imaginação do público. A câmera é quase toda claramente na mão, exceto por exemplo quando vemos Cláudia falar com o recepcionista na saída do hotel, sem poder ouvir o que falam, por causa da distância – a câmera fixa na escada por onde ela passa foi também uma boa sacada.
O filme parece um mosaico de retratos situacionais bem construído. Assim como Terezinha (Martha Meola), a evangélica, não espera ver na fita que recebe imagens do noivo com a ex-mulher, tampouco o espectador pensa nisso, mas basta a imagem da expressão dela mudando, junto com os sons do vídeo, para sabermos exatamente o que ela está sentindo. A sequência de planos alternados entre Terezinha e Cláudia mostra como foram não só vítimas de Teodoro, mas da própria esperança. O final mostra mais do que esperávamos ver: as três versões do assassinato, por pontos de vista diferentes, faz com que as pontas que ficaram soltas comecem a ser costuradas; afinal, trata-se ainda de um filme com início, meio e fim.
Os atores dão à história a cara de algo original, peculiar, e à la Stanislavski, vivem o personagem. Giulio Lopes é o Teodoro em pessoa, e conta que foi o papel mais rico que fez, pois para entendê-lo o público precisa (e o faz até sem querer) mergulhar em seu complexo universo. Apesar da autenticidade das cenas, tudo foi muito estudado, até a maneira de segurar a arma. Sérgio Penna, responsável por fazer os atores entender o que seriam seus personagens (função que também exerceu em Carandiru), preparou para Leona Cavalli ensaios solitários para viver a misteriosa Cláudia. Ailton Graça destacou-se em meio a 60 atores nos testes para Waldomiro, que defende brilhantemente dando ao personagem a aparente inocência descolada. Já a filha é interpretada após Silvia Loureiro (que também faz uma jovem problemática em O Cheiro do Ralo) lembrar de sua própria adolescência (pois é 10 anos mais velha que a personagem) e observar adolescentes na periferia, criando uma Soninha única.
A dúvida fica se a idéia de narrativa cronológica esteve presente em algum momento do processo, mas isso parece não ter importância. Roberto Moreira, que também assina como roteirista, conseguiu exatamente o que José Padilha apenas tentou em Tropa de Elite: permitir que o espectador acompanhe o processo de reconhecimento da história junto com os personagens/atores. Em Contra Todos, a câmera também é ligada para gravar improvisos, mas percebe-se logo que a preparação de elenco de Penna não poderia ter sido melhor: a atuação espontânea, sem pré-definições forçadas, mostra a interação ocorrida no trabalho, que flui como uma realidade sem máscaras e sem pretender-se aventura hollywoodiana.
A produtora O2 Filmes tomou conta do projeto, e Fernando Meirelles (diretor de Cidade de Deus), elogia a naturalidade conseguida no filme, que deixaria o espectador não sentado, mas “em pé na cadeira”. Roberto menciona que os temas violência, juventude e religião foram recriando a história durante as improvisações. Estava em busca do realismo deixado de lado pelo cinema brasileiro, que segundo ele, apresentava uma interpretação importada demais. Em Contra Todos, todos os personagens tentam realizar seus desejos, e Roberto Moreira conseguiu assim ver seu próprio trabalho na telona. É portanto uma das caras novas do cinema brasileiro, e uma das boas, que merece ser conferida.
Livia de Almeida Nascimento cursa Direção Teatral, é cinéfila, escreve, fotografa, desenha, produz, pesquisa, cria, observa... Está em plena efervescência profissional e é colunista e colaboradora do site Meu Cinema Brasileiro.