O Contador de Histórias tem estréia prevista para dia 7 de agosto e uma estética parecida com a de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, ambos tendo meninos como protagonistas algumas décadas atrás. Roberto Carlos cresce na Febem em meio a outros garotos, aprende a fugir, a roubar e poderia continuar fazendo isso por tempo indeterminado como seus amigos, se não conhecesse na Febem aquela que iria mudar sua vida. Margherit é uma pedagoga francesa estudando em Belo Horizonte, e com seu gravador, sotaque e jeito doce de ser, ganha a confiança de Roberto, talvez mais do que esperasse.
Depois de invadir sua casa e se trancar no banheiro por longas horas, Roberto passa a morar com ela, desenvolvendo aos poucos uma relação de afeto e cumplicidade que comove por, mais do que parecer cena de filme, ser uma realidade possível.
O verdadeiro Roberto Carlos Ramos tornou-se um grande contador de histórias. A opção de mostrar pelo que ele passou em sua infância e adolescência foi bem escolhida, junto com o final mostrando o futuro real do personagem. É como se todos seus erros, acertos, e aprendizados fossem mais tarde vir à tona. Antes de adulto, ele pouco falava. O contato com a pedagoga o fez ser cidadão e poder distinguir atitudes.
A sutilidade de roteiro e direção está por exemplo na cena em que os dois tomam café da manhã, e Margherit por um segundo receia quando Roberto pega uma faca. Em planos apenas das mãos dos dois, vemos ela também pegar uma faca, mas basta Roberto usar sua faca para passar manteiga no pão, para ela largar a sua. Em pouco tempo, na mesma cena, Margherit começa delicadamente a ensinar francês a ele, e eis quando seus laços de amizade começam a ser atados.
Roberto é interpretado por 3 atores, de acordo com a passagem de tempo. Todos os três defendem muito bem o papel e não deixam traços de incoerência, ressaltando as características mais marcantes de cada idade. Marco Antônio dá aos 6 anos de Roberto a ingenuidade, provocando risos por sua graça espontânea; Paulo Henrique é o que mais aparece, na fase pré-dolescente, fazendo que aos poucos Roberto desbanque a agressividade e desconfiança aprendidas na rua, tudo por conta do que passa a viver com a francesa; Cleiton dos Santos da Silva faz o adulto do final do filme, cuja voz em off desde antes soa como o ponto de vista do personagem principal, em momentos devidos.
Maria de Medeiros rouba a cena como Margherit, não só pelo bonito papel, mas pela interpretação cuidadosa, precisa e bem elaborada de uma estrangeira aparentemente inocente, mas firme em seu propósito e possibilitadora de uma grande e importante mudança.
Luiz Villaça dirigia teatro e TV antes de cinema. Seu primeiro filme, Por Trás do Pano, é de 1999 e se passa nos bastidores de um teatro, tendo Denise Fraga como protagonista. Apesar de ter recebido vários prêmios no Festival de Gramado, o filme é pouco conhecido do público, infelizmente. A atriz estrelou também "Retrato Falado" (na TV) e Cristina Quer Casar (2003), que além de protagonizar, produziu. Neste terceiro filme de Luiz, Denise atuou junto com Francisco Ramalho Jr. na produção, além de aparecer duas vezes por poucos segundos no próprio filme. Os cenários mudam bastante e tanto nas cenas internas como externas, inclusive na França, fica clara a preocupação em não tratar nada de maneira grosseira.
O Contador de Histórias conta ainda com a excelente Direção de Arte de Valdy Lopes Jr., como é visto nas imagens do circo, que seria a idéia que o menino Roberto Carlos fazia da Febem. Vemos também uma galinha viva capturada ao entrar na casa de madeira, e em um movimento lateral, ela sai da casa já pronta e sendo servida à mesa. A trilha sonora é composta ora deixando o filme leve, ora tenso quando é necessário, como quando Cabelinho de Fogo entra na casa de Margherit e, sem ser convidado, observa o que pode roubar dali; o silêncio pesado funciona como a opção melhor para a imobilidade da situação.
Trata-se de um filme sensível, ainda que contenha traços pesados da dura realidade brasileira (como outros, a exemplo de O Céu de Suely e O Caminho das Nuvens). É um filme sobre respeito pelo próximo, paciência, e sobre como cada um, fazendo o que pode, consegue realizar algo positivo: Margherit muda completamente a vida sem futuro de Roberto, que por sua vez resolve virar professor, e o filme conta belamente essa história, sem apontar culpados ou traçar definições; simplesmente mostrando o que pôde ser feito. É a história de um contador de histórias contada por quem, sabiamente, soube contar sua história.
Livia de Almeida Nascimento cursa Direção Teatral, é cinéfila, escreve, fotografa, desenha, produz, pesquisa, cria, observa... Está em plena efervescência profissional e é colunista e colaboradora do site Meu Cinema Brasileiro.