Filmes

Aqui Favela, O RAP Representa

Uma viagem pelos caminhos por onde se constrói o
movimento hip-hop em São Paulo e Belo Horizonte. O
filme apresenta jovens desconhecidos que integram o movimento e algumas de suas principais expressões como Thaíde e Mano Brown, além de África Bannbaataa, Nelson Triunfo, Lady Rap, Shyrlane e outros. Eles têm em comum o esforço para fortalecer suas identidades, a revalorização de aspectos culturais africanos, a recuperação da auto-estima e a compreensão da complexidade social através das manifestações culturais criadas nas favelas e periferias. A indústria cultural também é questionada, pois os hip-hoppers driblam o sistema de produção hegemônico para formar uma nova esfera de ação ética, estética e política.

Ficha Técnica

Título original: Aqui Favela, O RAP Representa
Gênero: Documentário
Duração: 82 min.
Lançamento (Brasil): 2003
Site: site oficial
Direção: Júnia Torres e Rodrigo Siqueira
Roteiro: Júnia Torres, Rodrigo Siqueira
Produção: Júnia Torres e Rodrigo Siqueira
Som: João Marcelo M. Santos
Fotografia: Léo Ferreira
Direção de arte: Julio Dui
Finalização: Estúdios Mega

Elenco

Mano Brown
Thaíde
Nelson Triunfo
Afrika Bambaataa
Interferência
Elemento
Ronaldo Black
N.U.C.
Clodoaldo Arruda
Lady Rap
Sharylaine
Milton Sales

Pôsters

Premiações

-

Curiosidades

- Documentário realizado com recursos do Prêmio Nacional de Apoio a Documentários do Ministério da Cultura. O projeto foi um dos 13 selecionados entre 201 concorrentes em edital aberto pelo MinC, em parceria com a Fundação Palmares, em 2001.

- A equipe entrevistou cerca de 50 pessoas e produziu 130 horas de material bruto. Nos 2.800 km que rodou na periferia da capital paulista e Grande SP e nos 1.500 km que percorreu em BH, esteve em contato com um modelo de produção distante dos padrões da indústria cultural.

- Trechos de entrevistas dos personagens do documentário:
"O rap é uma coisa que, hoje, igual eu falei pra você, não tem mais nada definido assim. O rock, o samba o pá pá.. o que tem definido hoje no Brasil, é o que? É os
que nunca conseguiu fazer nada, agora ta começando a fazer alguma coisa. Eles fazem o que? Eles fazem Rap. Os caras tão fazendo o quê? Rap. Rap fala do que? Fala de trinta mil coisas. Não é só de movimento sem terra, não é só de, de, de guerra de, de, social, entendeu? Porque não nasceu pra isso. Nasceu como música. Primeira coisa: rap é música. E música pode ter, 20 mil lados. 20 mil assuntos. Então é confuso. Quando as pessoas quer pôr essa responsabilidade em cima dos moleques, é onde o barato começa a desandar. Você faz rap. O quê que você faz na sua quebrada? O quê que você faz lá? Você distribui cesta básica? Você dá dinheiro? O quê que ocê tem? Ô! Eu não faço porra nenhuma. Eu canto rap. Sentir. Cantar. Sentimento. Que nem Marvin Gay fez. Que nem Bob Marley fez. Imagina um monte de estudante de faculdade em cima do Bob Marley: você tem que falar. Você tem que falar. Ele não faria essas músicas que ele fez, nunca."
"É um estilo de música que só nós sabe fazer. Nós pode fazer, os outros não pode mesmo. Eu já acho: Não pode. Quem pode fazer rap mesmo é preto de favela e já era. Os que tiver fazendo tá no axé, tá ligado? Tá no axé que eu digo assim: tá ganhando um boi. Porque quem tem que fazer é quem não teve escolha. Quem tem vai cuidar de padaria de pai, vai estudar direito. Vai fazer os barato que quer fazer. Deixa o bagulho pra quem é. Ta ligado? Porque quando começou ninguém queria ser. Ninguém queria ser. Hoje em dia é roqueiro querendo cantar rap, é não sei quem e pá. Andando com roupa de americano. Agora, preto brasileiro ninguém quer ser. Eles pode escolher entre ser ou não ser. Os que moram aqui não têm escolha. Já é, entendeu?"
"Já me falaram até que toda a história da África não foi escrita. Foi toda contada. Acho que o rap já é essa herança aí, entendeu? Barato de história. Falar, de não escrever. Os caras fala que a história da África não foi escrita. Foi toda contada de geração pra geração. Será que é verdade, isso aí? "
Mano Brown

"Eu sempre digo que antigamente, principalmente na década de 70 e, quando eu comecei a me perceber, na década de 80 e tal, a gente tinha uma redoma de vidro
na periferia. Pelo menos no bairro onde eu morava. A gente tinha uma redoma. A gente achava que a gente poderia chegar até um limite da cidade e de lá voltar. Então era: de casa pro trabalho. Do trabalho até aquele limite e voltar. Ta entendendo? Através do HIP HOP a gente descobriu que não existe limite. Você tem o direito de avançar aquele ponto que você ia sempre. Você tem direito. Entendeu? Porque tem direito? Porque são ruas, são vias públicas. São praças. E você é um cidadão daquela cidade. Entende? Na verdade deveria todo mundo ser cidadão do mundo. Não deveria ter essa divisão, mas tem. Infelizmente. Então, se a gente tem o direito de ir até aquela cidade, até, quer dizer, passar aquele ponto que a gente ia. Se a gente trabalha, se a gente vive nessa cidade, se a gente nasceu nessa cidade, se nós somos cidadãos paulistanos. Então quer dizer que a cidade é nossa. Então os pontos públicos também é nosso. Então a gente vamos usar esses pontos públicos. Vamos usar esses lugares públicos pra poder mostrar o que a gente sabe fazer."
Thaide

"Hoje em dia, se a gente pega aí a questão duma pessoa aí que batalha, pai de família, batalha aí o mês inteiro pra sustentar a sua família. De 2, de 3, quatro, cinco pessoas, com o salário mínimo. O pessoal, ganha isso no tráfico aí... em questão de horas. E aí vão dizer o que? Vai dizer que isso é opção? Isso não é opção. Isso é uma necessidade. Como é que você vai convencer um cara? O que você vai oferecer pra ele... pra ele em troca de que ele largue da arma? Que ele começce a ter uma concepção maior que isso... Comece ver o mundo diferente sendo que o cara tem as suas necessidades."
" E aí, quem que passa a trabalhar pela paz, não é o estado. Não é o governo como um todo. Somos nós. Que desenvolve cultura. Que dá alternativa de fato para as pessoas. A gente é que controla isso. Porque mesmo com a promoção da opressão, mesmo com a polícia batendo no morro, do jeito que tá, não é eles quem contém isso. Somos nós. Quem produz a cultura. Quem faz. Quem faz oficina, quem desenvolve é... quem dá oportunidade para a população. Hoje em dia a gente pega diversas, oficinas, diversos acontecimentos, mas que é a própria comunidade que tá gerando isso."
DJ Francis

"Tem gente que diz pra nós que o Rap é coisa de americano e que a gente não devia tá fazendo isso. Se a gente queria reconstruir a imagem da juventude negra brasileira, a gente devia fazer samba ou fazer forró, fazer qualquer coisa de música brasileira. Mas, eu sempre digo que tem uma coisa que une o Reggae da Jamaica, o rap dos Estados Unidos, o samba do Brasil. A gente não faz música negra só. Quando a gente diz que faz black music, que faz música negra, o que a gente tá inventando é um jeito bonitinho de dizer que a gente faz música africana. Todos os negros vieram de um lugar só. Então a gente faz música africana na diáspora. É muito natural que o repente pareça com o Rap, é muito natural que o reggae pareça com o baião, que os andamentos sejam os mesmos, que a ritualística de composição e de citações, sejam as mesmas. E isso traça paralelo muito engraçado entre o Rap e a música negra que se faz no mundo todo e até entre o candomblé, por exemplo."
"O que Rap tentou fazer, o que o rap tenta fazer e eu acho que consegue fazer é isso. É invocar os ancestrais da música africana e trazer pra cá. Então, assim como o rock queria trazer o blues, assim como o soul queria trazer o funk, assim como o forró quer trazer as batidas dos candomblés e dos rituais africanos feitos no nordeste, o rap quer fazer isso de uma forma muito mais global, porque tem recursos para isso, tem material para isso, porque todo mundo já fez o material, e quer trazer de uma forma que a juventude entenda exatamente assim... pra que daqui alguns 20 ou 30 anos, alguém recupere o Rap também. Ou me recupere. Assim como eu queria recuperar o Jorge Bem, o Marku (Ribas), o Djvam, o Ataulfo, o Cartola, o Nelson Cavaquinho. Eu espero que daqui 30 anos alguém queira recuperar o Clodoaldo, a Kelen, o Mano Brown, Thaíde, o Ed Rock. porque a gente faz parte dessa história. Eu vou ser ancestral de alguém, assim como eu sou descendente de alguém. E na música negra acontece a mesma coisa. Uma música sempre é descendente de alguma e ancestral de outra. Então essas coisas estão sempre muito juntas, mas só tão juntas porque a raiz é uma só."
Clodoaldo

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