Admito que tenho um certo preconceito em rela��o ao g�nero com�dia; a espectativa criada faz, em geral, que eu me decepcione com filmes que desde o in�cio prop�em-se engra�ados. Por isso n�o me animo em ir ao cinema ver, por exemplo, o recente A Guerra dos Rocha. At� ri com o sucesso de bilheteria Se eu fosse Voc� (mesmo sendo uma hist�ria parecida ao do americano Sexta Feira Muito Louca [Freaky Friday], foi uma surpresa boa), mas nada me empurrou � sala escura para ver sua continua��o, assim como achei Div� divertido, mas longe de virar meu filme preferido. Ressalvas feitas, acabo de ver a com�dia brasileira Fica Comigo Esta Noite. Eis o que posso comentar:
A criatividade incans�vel de Jo�o Falc�o, um ano depois de lan�ados A M�quina e O Coronel e o Lobisomem, trouxe ao cinema Fica Comigo Esta Noite e vemos de novo que, em se tratando de Jo�o, tudo � poss�vel. Como nos anteriores, um espectador distra�do deve ficar atento � hist�ria, ou n�o compreender� que diabos est� acontecendo nela. A narrativa, que antes de ser roteiro de filme era uma pe�a escrita por Fl�vio de Souza e foi representada por atores como Marisa Orth e Murilo Ben�cio, se passa em vida, mas logo fica entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, com direito a fantasmas e cenas inexplic�veis. O texto faz com que o filme tenha �um tom por vezes sombrio, mas os di�logos inteligentes �clareiam� o humor negro a que se poderia chegar.
Fica Comigo Esta Noite foi produzido por Diler Trindade, que parece gostar muito da fantasia criadora de universos da mente de Jo�o e seus colaboradores. O diretor conta que Vladimir Brichta foi (bem) escolhido para fazer o personagem principal por conseguir tratar de um assunto delicado � a morte � de forma bastante divertida. De fato as brincadeiras com o tema no filme s�o tantas, que outro ator qualquer dificilmente lidaria com a insanidade inocente proposta, tornando-a t�o deliciosa de se ver. O ator Gustavo Falc�o, aqui como o fantasma Cora��o de Pedra, aparece completamente diferente de Ant�nio, protagonista de A M�quina. Nos dois filmes, a fotografia e a trilha sonora t�m papel fundamental, construindo junto com os demais elementos cinematogr�ficos hist�rias a princ�pio sem p� nem cabe�a, mas que n�o s� divertem como levam o espectador a realidades de maneira geral completamente diversas � que est� acostumado.
Os elogios a Jo�o Falc�o feitos por Gustavo e Clarice Falc�o (que interpreta Dona Mariana quando jovem) podem ser suspeitos pela familiaridade (respectivamente, sobrinho e filha). Por�m, junto com os protagonistas, a satisfa��o que a veterana Laura Cardoso (Dona Mariana quando velha) mostra por trabalhar com o diretor � reveladora. Ele �, segundo ela, um dos poucos diretores de verdade que ela conhece, pois sabe pedir ao ator o que ele quer, sem tirar sua criatividade. Esse � um papel t�o dif�cil quanto delicado, pois h� muitos diretores que tratam atores como bonecos, e o resultado, para um espectador-observador, se v� em cena. Jo�o faz muito teatro, e � inspirador ver como transporta essa arte para o cinema, um meio mais �impessoal� que a velha arte dos palcos.
Apesar de achar as obras de Jo�o �boas fontes de divers�o, t�o elucidativas quanto bem articuladas, diria que seus filmes quase pecam somente pelo excesso de informa��o. Um espectador sem paci�ncia desiste de acompanhar e tentar entender aonde est� sendo levado. Por outro lado, esse � um pecado bom, pois nesse caso � melhor o excesso � falta de criatividade. Dito isso, se voc� procura um filme para tarde chuvosa, final de semana sem festa e balde de pipoca � vontade, embarque na loucura e bom divertimento!
Livia de Almeida Nascimento cursa Dire��o Teatral, � cin�fila, escreve, fotografa, desenha, produz, pesquisa, cria, observa... Est� em plena efervesc�ncia profissional e � colunista e colaboradora do site Meu Cinema Brasileiro.