Entrevista Exclusiva com o Diretor Marcos Horácio Azevedo
18 maio 2014O diretor Marcos Horácio Azevedo vem tendo uma grande repercussão no cenário do cinema nacional nos últimos anos com maravilhosos trailers dos principais filmes produzidos no Brasil e exterior. E no ultimo mês conquistou a critica estadunidense com o documentário para a ESPN sobre o nosso Mané, “The Myth of Garrincha”, “O Mito Garrincha”, mostrando uma face até então desconhecida do público internacional.
A ESPN Brasil passa o documentário no dia 25 de Maio, próximo domingo Sábado, dia 31 às 22:00.
Como surgiu a oportunidade de apresentar um documentário no maior canal esportivo dos EUA?
Eu soube que a ESPN Films, que vem desenvolvendo há alguns anos uma das mais premiadas séries de documentários sobre esporte chamada “30 for 30”, estava interessada em abordar temas brasileiros por conta da Copa do Mundo no Brasil. Imediatamente entrei em contato com eles, submeti uma justificativa sobre o por quê de se fazer um doc. sobre o Mané, e uma proposta detalhada de como seria este filme. Eles se amarraram na ideia e me deram o sinal verde.
Qual a maior dificuldade na realização do filme?
Foram dois grandes obstáculos. O primeiro foi localizar as imagens de arquivo e negociar a sua utilização junto aos seus detentores. Muitos dos veículos de comunicação onde foram publicadas as fotos já estão extintos. Aí começa um trabalho de detetive para encontrar os indivíduos ou empresas que herdaram ou adquiriram este acervo fotográfico/audiovisual. Por se tratar de um documentário que será exibido mundialmente, a emissora exige que tudo aquilo que for ao ar tenha sido claramente autorizado por quem é de direito.
O outro grande e mais doloroso obstáculo surgiu há alguns meses com o afastamento do meu co-produtor do “The Myth of Garrincha”, Marcello Serafim, por conta de um grave problema de saúde que acabou culminando com seu falecimento, três semanas antes da estreia do filme. O projeto vinha sendo conduzido a quatro mãos: as minhas, que tocavam a direção e edição do documentário, diretamente de Los Angeles, e as do Marcello, que cuidavam principalmente dessa parte de negociação e aquisição das imagens de arquivo. Há dois meses eu tive que assumir suas responsabilidades e, por conta disso, fiquei muito sobrecarregado - ao mesmo tempo em que preocupado com seu estado de saúde. Infelizmente, o Marcello não resistiu para poder assistir ao filme na TV. O “the Myth of Garrincha” virou, então, não apenas um merecido tributo ao Mané, mas ao Marcello também.
Quanto tempo levou para realização do projeto e como foi feito?
O projeto, desde a pré-produção, levou uns 16 meses. Ele envolveu um trabalho muito grande de pesquisa de imagens que começou imediatamente após o “sinal verde” da ESPN Films, continuou enquanto realizávamos as entrevistas e perdurou até algumas semanas antes da estreia na TV americana. Outro grande obstáculo que precisei superar foi como contar a história da vida de uma pessoa como o Garrincha em apenas 22 minutos. Neste caso, acho que minha experiência como editor de trailers ajudou bastante.
Para os estudantes e pessoas que almejam ser diretores de documentários? Isso dá dinheiro?
Eu não conheço um documentarista brasileiro que ficou rico. Mesmo nos EUA, onde tem gente como o Michael Moore levando milhões de pessoas ao cinemas para assistirem aos seus filmes, não acho que dê pra ficar. Acho que quem faz documentário faz por que quer, por que precisa até, contar sobre algum fato ou personagem que lhe cative.
Com tantos atletas míticos que passaram pelas Copas, por que a escolha pelo gênio das pernas tortas, Garrincha?
O Garrincha virou um mito não apenas pelo que ele fez dentro das quatro linhas, mas por conta também da vida que ele viveu fora delas. Ele é um personagem riquíssimo, que ilustra como ninguém a essência do nosso povo. Ele tinha tudo pra dar errado: era aleijado, não tinha educação, era pobre… havia sido desenganado e desencorajado de seguir carreira no futebol por médicos e técnicos. No entanto, quanto a bola chegava nela na ponta direita, não havia uma pessoa que fizesse o que ele conseguia fazer. Resultado? Ganhou duas copas do Mundo - sendo que uma, a de 62, delas ele praticamente levou o time “nas costas”. Sua vida pessoal também tem todos os ingredientes que o tornam um personagem interessantíssimo: tem romance, traição, tragédia… Não há absolutamente ninguém na história do futebol brasileiro que tenha reunido todas essas características e se transformado num herói nacional como ele.
Diferenças de trabalhar no exterior e no Brasil?
Eu tive uma ótima experiência desenvolvendo este projeto para ESPN. Acho que a maior diferença é a celeridade e objetividade com que as decisões são tomadas e, a partir daí, entra o profissionalismo para que estas mesmas decisões sejam adotadas na prática.
Como funciona a Tatuí Filmes?
A Tatuí nasceu para criar trailers, teasers, promos e spots de TV para o lançamento de filmes no mercado brasileiro. Ao longo de 7 anos, participamos dos lançamentos de mais de 140 títulos, desde Chico Xavier, Lula, Alemão até os mega-sucessos internacionais Crepúsculo, Divergente e Jogos Vorazes e nos tornamos uma referência no mercado. Nós procuramos participar ativamente da discussão sobre o posicionamento de cada filme que participamos para “afinar” a estratégia de nossos clientes (distribuidores e produtores). É um trabalho que mistura a criação publicitária com a realização cinematográfica.
Existe liberdade para criar um trailer ou já recebe as diretrizes do Diretor e/ou produtores?
Nós temos uma “liberdade vigiada”. A gente pode usar praticamente tudo que quisermos do filme que recebemos. Mas precisamos sempre ter em mente o briefing de nossos clientes, em geral os distribuidores. Às vezes, produtores e diretores se envolvem neste processo. É legal que tenhamos o input de quem quem conhece bem o material. Por outro lado, temos o nosso “know-how” que acrescenta muito à estratégia de lançamento de um filme. O mais importante é manter o foco no objetivo principal do nosso trabalho: criar uma peça que comunique, que desperte o interesse junto ao público. Trailer bom é o trailer que vende ingresso. E para que isso aconteça, todas as partes envolvidas precisam se respeitar e fazer o que for melhor para o filme.
Qual clássico do cinema brasileiro gostaria de ter feito um trailer?
Eu gostaria de ter feito o trailer de “Bye Bye Brasil” e de “Os Fuzis”. São filmes bem diferentes mas que eu adoro! O primeiro tem uma música maravilhosa, diálogos muito bons e imagens impressionantes. O segundo, apesar de ter feito parte do Cinema Novo e ser um filme para um público mais seleto, tem elementos de um Western clássico… Acho que com um trailer “vendedor” poderia atrair uma plateia muito maior do que atraiu no seu lançamento original.
Para finalizar quem leva a Copa 2014?
Brasil. Ou a Alemanha, se esta jogar apenas com seu primeiro uniforme.
Veja a lista de alguns Trailers produzidos pela Tatuí Filmes
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